No comecinho é tudo lindo. Time pequeno, todo mundo se fala, as decisões saem na hora e ninguém fica “por fora”. Mas aí o time cresce. Chega gente nova, mais demandas, mais ideias, mais tudo. E, do nada, o que era simples vira ruído. A conexão se perde. A agilidade some. Parece que a mágica evaporou.
Será que foi só impressão? Ou crescer realmente bagunça o jogo?
Spoiler: sim, crescer traz complexidade. Mas isso não precisa virar caos.
Por que times pequenos funcionam tão bem?
Porque a comunicação flui.
É como jogar futebol com meia dúzia de amigos. Você sabe onde cada um está, o que está pensando, e a bola corre solta. Nada engasga.
Jeff Bezos tem aquela regra clássica: se duas pizzas não alimentam o time, tem gente demais. Parece piada, mas faz muito sentido. Equipes pequenas têm menos pontos de contato, menos ruído, mais clareza. Todo mundo se escuta. Todo mundo se importa.
E tem matemática nessa história. Um time com 5 pessoas tem 10 canais de comunicação. Com 11 pessoas, já são 55. Ou seja, cada nova pessoa adiciona várias rotas a mais para mal-entendidos, desalinhamentos e retrabalho. É tipo um novelo de lã se embolando.
Essa conta vem da fórmula N × (N – 1) ÷ 2, onde N é o número de pessoas no time. A cada pessoa nova, você não adiciona só uma conversa a mais – você multiplica as possibilidades de conexão. Segundo Jason Evanish, especialista em liderança e fundador do Get Lighthouse, essa explosão de interações é um dos principais motivos pelos quais times maiores perdem agilidade. A comunicação se torna exponencialmente mais difícil de manter clara e alinhada.
Um estudo publicado na revista Nature mostrou que times pequenos são mais criativos e disruptivos. Já os grandes… entregam mais do mesmo. E pior: quanto mais gente, menos produtividade por pessoa. A energia vai toda para alinhar, explicar, reunir, coordenar. E o que era leveza vira peso.
Crescer não é somar — é multiplicar a complexidade
Quando o time cresce, a coisa desanda se você não mudar o jogo.
Mais gente significa mais conexões. Mais decisões. Mais chances de erro. A comunicação começa a falhar. Aquele alinhamento natural vira confusão. E, de repente, tem gente tocando o mesmo projeto sem saber. Informações que não chegam. E problemas pequenos que viram incêndio.
Lembra quando uma reunião rápida resolvia tudo? Chega uma hora que “todo mundo” já não cabe mais na mesma sala. E o que era informal precisa virar processo.
A liderança também estica. O líder, que antes acompanhava tudo, começa a virar gargalo. Não dá mais pra estar em todas. Nem pra tomar todas as decisões. E aí, ou o time trava, ou você delega. Simples assim.
Três momentos críticos que bagunçam tudo
Até 10 pessoas: Clima de família. Todo mundo fala com todo mundo. Tudo flui. Agilidade máxima. É o auge da simplicidade.
De 10 a 15: Aqui começam os primeiros ruídos. Já não dá pra todo mundo estar em todas as conversas. Começam a surgir “times dentro do time”. E, se ninguém cuida, começam os silos.
De 15 a 25: Se nada for feito, aqui é onde tudo quebra. Literalmente. A comunicação trava, a liderança se perde, os processos improvisados deixam de funcionar. Crescer sem estrutura vira risco real.
Como crescer sem perder a alma
O segredo está em se antecipar. Crescer com intenção. Não esperar a casa cair pra tomar atitude.
Aqui vão caminhos que funcionam:
1. Divida para conquistar
Crie pequenos squads. Equipes de 5 a 7 pessoas com autonomia para tocar frentes específicas. Isso dá leveza e foco. Cada célula sabe seu papel, mas faz parte de algo maior. Amazon, Spotify e outras gigantes usam esse modelo. Funciona.
2. Reforce a comunicação (e repita até cansar)
Não dá mais pra contar com “todo mundo já sabe”. Comunique mais. E melhor. Use vários canais. Repita o que é importante. Alinhe expectativas. E lembre: o silêncio também comunica — e quase sempre, comunica mal.
3. Crie camadas de liderança
Você não precisa (e nem deve) estar em tudo. Promova quem está dentro, traga quem soma. Líderes intermediários são pontes. Organizam, escutam, filtram, guiam. E evitam que o gestor vire apagador de incêndio.
4. Crie processos (mas não engesse a empresa)
Processo bom é o que resolve problema real. Comece simples. Documente o que já funciona. Padronize o que está bagunçado. Tenha rituais, combinados, ferramentas. Mas fuja da burocracia. O objetivo é dar clareza, não travar.
5. Proteja a cultura com unhas e dentes
Cultura é o que segura a barra quando tudo muda. Defina seus valores cedo. Viva eles. Contrate por eles. E repita (sim, de novo). Cultura não é frase na parede. É o comportamento diário.
6. Mostre caminhos de crescimento para as pessoas
Gente boa quer crescer. Então, crie trilhas. Mostre possibilidades. Dê perspectiva. Reconheça quem está dentro. E cuide para que o crescimento da empresa seja também crescimento de cada um.
Se ligue!
Equipes pequenas têm superpoderes. Mas crescer é inevitável. E maravilhoso — quando feito com intenção.
Você pode crescer mantendo a essência. Pode multiplicar resultados sem perder agilidade. Mas isso exige atenção, estrutura, escuta e coragem de mudar.
Então, na próxima vez que pensar em contratar mais alguém, pare e pense:
“Essa nova pessoa vai somar? E como vou manter o time conectado, engajado e na mesma batida?”
Porque crescer, de verdade, não é só colocar mais gente na sala.
É garantir que todo mundo esteja jogando o mesmo jogo.
Com propósito, clareza e movimento.
#movimentogeramovimento
Fred Alecrim
Referências:
- Evanish, Jason. “Why everything breaks when you reach 25 employees.” Get Lighthouse Blog
- Azevedo, Watson R. “LC = N(N-1)/2 e a sua equipe.”* LinkedIn (2019)
- Das, Rajat. “Why small teams outperform large teams...” LinkedIn (2021)
- Choi, Janet. “Jeff Bezos’ 2 Pizza Rule: Why Small Teams Work More Productively.” Buffer Blog
- Jorgenson, Eric. “Why Growing Past 20 Employees is so Damn Hard.” Blog (2017)
- Mehta, Nisarg. “Why 7 is the Magical Number for Agile Team Size.” Techtic (2022)