O que o mundo está tentando nos dizer?
Uma pesquisa divulgada hoje pela Work Foundation, da Lancaster University, encontrou um movimento importante no mercado de trabalho britânico. Entre 1.001 líderes empresariais ouvidos pela Survation, 36% disseram ter reduzido, nos últimos 12 meses, o número de vagas de entrada disponíveis para jovens de 16 a 24 anos. Entre pequenas empresas, foram 24%. Nas médias, 48%. Nas grandes, 46%.
A inteligência artificial e a automação aparecem dentro desse movimento, mas não explicam tudo. No conjunto da pesquisa, 43% dos empregadores afirmaram ter investido em IA ou automação de uma forma que reduziu o número de posições de entrada. Entre grandes empresas, essa proporção chegou a 60%; entre pequenas, ficou em 24%. É aquilo que os próprios empregadores relatam sobre seus investimentos, não uma demonstração de que a IA seja responsável pela redução geral dessas vagas.
Há outro dado que ajuda a evitar uma explicação fácil. 60% dos empregadores dizem que jovens de 16 a 24 anos estão, em geral, preparados para o mundo do trabalho; apenas 17% discordam. Ao mesmo tempo, 62% afirmam priorizar experiência anterior na contratação para vagas de entrada.
A dificuldade de começar também não surgiu agora. Uma pesquisa anterior da própria Work Foundation encontrou queda de 49% nas vagas consideradas acessíveis a alguém entrando pela primeira vez no mercado de trabalho entre 2016-17 e 2025-26. Esse movimento antecede a atual aceleração da IA e tem uma história mais ampla.
A tensão que aparece é concreta: experiência continua sendo valorizada enquanto algumas das oportunidades pelas quais ela pode começar a ser adquirida estão diminuindo.
O que realmente mudou?
A pesquisa ajuda a olhar para a empregabilidade juvenil por outro ângulo.
O problema não pode ser explicado apenas pela preparação dos jovens. A maioria dos empregadores pesquisados considera esse público preparado para o trabalho, enquanto mais de um terço relata ter reduzido vagas de entrada.
IA e automação entram como um fator dentro de um movimento que já vinha acontecendo. Parte dos próprios empregadores associa a redução de posições de entrada aos investimentos que fez nessas tecnologias, mas esse autorrelato não explica sozinho o encolhimento dessas oportunidades.
O que merece nossa atenção?
Uma vaga de entrada não é apenas um posto de trabalho. Em muitos casos, também pode ser um lugar onde alguém começa a adquirir experiência.
Isso torna a redução dessas posições especialmente relevante. Uma tarefa pode ser simples ou rotineira e, ainda assim, participar do processo pelo qual alguém aprende a trabalhar, desenvolve critério e ganha repertório profissional.
A pesquisa não mostra que toda posição de entrada produza esse desenvolvimento nem que toda automação o elimine. O que ela permite investigar é o que acontece quando algumas dessas experiências iniciais começam a diminuir.
O que podemos construir a partir disso?
Para quem lidera empresas, a pergunta prática fica mais precisa:
se uma empresa reduz as posições pelas quais pessoas começavam a aprender o trabalho, por onde elas começarão a construir a experiência que hoje continua sendo valorizada na contratação?
Fontes principais
Work Foundation, junho de 2026: “Starting out: Boosting youth employment in local labour markets”
Reuters, 26 de agosto de 2026: “One in three UK employers have cut entry-level jobs, survey shows”