Varejo de desconto cresce no on-line

A tapioca virou no varejo de desconto. E desta vez ela está transmitindo ao vivo.

Por décadas existiu uma engrenagem silenciosa por trás do varejo. Quando um produto envelhecia na prateleira, quando sobrava estoque ou quando uma coleção simplesmente não encontrava compradores, esse excedente desaparecia dos holofotes. Ia para distribuidores anônimos que abasteciam as grandes redes de desconto.

Lá fora, gigantes como TJ Maxx, Marshalls e Ross construíram impérios bilionários em cima de uma psicologia simples e profundamente humana.

A caça ao tesouro.

Estoque limitado.

Preço final.

A sensação de que, se você não levar agora, alguém leva. Sempre funcionou porque nunca foi apenas sobre preço. Era sobre descoberta, sobre escassez. Era sobre o prazer de encontrar algo que parecia ter sido reservado para você.

Mas existe uma pergunta mais interessante. E se esse mecanismo, que durante décadas viveu escondido nas sombras do varejo, passasse a acontecer diante de milhões de pessoas, ao vivo?

É exatamente isso que está acontecendo. Em junho de 2025, o TikTok Shop lançou o countdown bidding. Leilões acontecendo dentro da própria live, com um cronômetro correndo na tela e compradores disputando em tempo real.

O lance é vinculante, quando a contagem termina, a venda é finalizada.

Não é uma interpretação. Está nas próprias regras do TikTok Shop. E o Social Media Today resumiu bem o movimento: um leilão no estilo eBay rodando dentro da transmissão, desenhado para aumentar interesse e elevar os preços por meio da competição ao vivo.

No Brasil já está em funcionamento a oferta relâmpago. O preço do produto precisa ser menor do que o menor preço do produtos nos últimos 30 dias.

Mas talvez a história mais importante não seja sobre o TikTok. Talvez seja sobre algo muito maior, porque a lógica antiga ganhou uma nova embalagem.

O mesmo estoque.

O mesmo desconto.

A mesma liquidação.

Só que agora tudo ganhou narrativa.

O que antes era encalhe virou entretenimento.

O que antes era excesso virou evento.

O que antes acontecia nos bastidores agora acontece diante da plateia.

E é curioso perceber como as coisas mudam de nome sem mudar de natureza.

Porque muitas revoluções começam assim, elas não inventam uma necessidade, elas apenas mudam a forma como essa necessidade se manifesta.

Por isso, talvez a pergunta não seja por que isso converte tanto. Talvez a pergunta seja por que nós continuamos respondendo aos mesmos estímulos, século após século.

Urgência.

Escassez.

Pertencimento.

Competição.

Nada disso é novo.

Novo é o palco.

Novo é a velocidade.

Novo é o algoritmo.

O ecommerce tradicional vive numa faixa conhecida de conversão entre 2% e 4%. Em muitos setores, a média real fica até abaixo disso. Já os números frequentemente associados aos leilões ao vivo são maiores, embora as faixas mais citadas ainda venham de análises e não de uma fonte primária auditável.

E talvez essa seja a parte mais importante, porque autoridade não nasce de afirmar mais, nasce de separar aquilo que sabemos daquilo que ainda estamos observando.

Mas existe outro sinal difícil de ignorar.

O Whatnot.

Nos EUA e Europa, a plataforma de live commerce possui 60% de participação do mercado.

Olha aqui os números atualizados

Dinheiro costuma errar.

Mas raramente ignora mudanças de comportamento.

E é aí que a história fica mais interessante.

Porque toda vez que uma nova camada surge, alguém captura valor.

E alguém perde relevância.

Foi assim com os distribuidores.

Foi assim com os marketplaces.

Foi assim com as redes sociais.

E talvez esteja acontecendo de novo.

Porque uma nova classe de intermediários está nascendo.

Não são donos das marcas.

Não são fabricantes.

Não são varejistas.

São donos da atenção.

Compram os estoques.

Controlam a audiência.

Acumulam os dados.

Capturam a margem.

No fundo, fazem hoje o que os distribuidores anônimos fizeram durante décadas.

Só que agora possuem algo que os antigos intermediários nunca tiveram.

Uma comunidade.

E talvez seja aqui que mora a pergunta mais desconfortável.

No futuro, quem vai possuir o relacionamento com o cliente?

As marcas?

Ou quem controla a audiência?

Porque a história dos negócios é, em grande parte, a história das camadas que se colocam entre quem produz e quem consome.

E toda camada nova nasce prometendo eficiência.

Até o dia em que ela passa a capturar mais valor do que entrega. Talvez estejamos vendo o nascimento de mais uma delas. Ou talvez estejamos assistindo ao início de algo ainda maior.

Porque, se o desconto virou entretenimento, o que mais pode virar?

Se a liquidação virou espetáculo, o que acontece quando inteligência artificial, transmissão ao vivo e comércio começarem a operar como uma coisa só?

Será que, no futuro, vamos comprar produtos?

Ou participar de experiências?

Será que as marcas continuarão vendendo?

Ou passarão a dirigir comunidades?

Será que os estoques continuarão sendo liquidados?

Ou serão transformados em conteúdo?

E uma pergunta ainda mais provocativa.

Se durante décadas o varejo escondeu seus excessos, por que agora decidiu transformá-los em espetáculo?

Talvez porque a economia esteja mudando.

Ou talvez porque atenção tenha se tornado mais valiosa do que produtos.

Durante muito tempo, o desconto viveu nos bastidores.

Agora ele ganhou palco.

Ganhou audiência.

Ganhou cronômetro.

A pergunta já não é se isso vai existir.

A pergunta é quem vai controlar essa nova camada.

Porque quem dominar a atenção provavelmente capturará a margem.

E quem chegar atrasado talvez descubra que o intermediário mudou.

Mas a dependência continua a mesma.

A tapioca virou.

E desta vez ela está ao vivo.

Mas talvez essa seja apenas a primeira volta.

E as próximas podem mudar muito mais do que a forma como vendemos.

Podem mudar a forma como desejamos.

Outras fontes:
TikTok

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