O ser humano está morto?

Tem algo silencioso acontecendo com a gente.

Não é uma revolução barulhenta, não tem sirene nem manchete. Ainda assim, está acontecendo. Devagar, quase imperceptível. O ser humano parece estar sendo substituído. E no lugar dele começa a surgir outra figura.

O Ter Humano.

Essa expressão, que ouvi do amigo Kiko Kislansky, traz uma provocação poderosa e talvez uma das reflexões mais importantes do nosso tempo, pelo menos no meu ponto de vista. Para quem quiser conhecer melhor suas ideias, vale explorar seus livros aqui:

Basta olhar ao redor

Nunca tivemos tanto acesso, tantas possibilidades e tantas vitrines. Curiosamente, nunca pareceu tão difícil simplesmente ser.

Ser tranquilo. Ser verdadeiro. Ser suficiente.

Em algum momento da história, a lógica parece ter virado. Antes, o que alguém tinha era consequência do que alguém era. Hoje, muitas vezes parece o contrário. O que alguém é passou a ser medido pelo que consegue mostrar que tem.

Carro, casa, relógio, viagem, cargo, seguidores.

A lista muda com o tempo, mas o jogo continua sendo o mesmo.

Pertencer virou parecer.
Aceitação virou performance.
Reconhecimento virou vitrine.

Quando o valor de alguém passa a ser medido principalmente pelo que possui, a essência começa lentamente a perder espaço para a aparência.

Quando um sistema de valores muda

Essa mudança lembra uma provocação famosa do filósofo Friedrich Nietzsche, quando escreveu que “Deus está morto”.

Muita gente interpreta essa frase como um ataque à religião, mas não é bem isso. O que Nietzsche estava dizendo era algo muito mais profundo. Durante séculos, grande parte das decisões humanas se organizava em torno de um conjunto relativamente compartilhado de valores. Moral, propósito, sentido de vida e limites ajudavam a orientar a vida em sociedade. Esses valores tinham na ideia de Deus uma referência central.

Quando Nietzsche afirma que “Deus está morto”, o alerta não era sobre religião, mas sobre o colapso daquele sistema de valores que sustentava a organização moral da sociedade.

As pessoas estavam deixando de acreditar nas mesmas referências que organizavam o mundo. E quando um sistema de valores desaparece, outro inevitavelmente ocupa o seu lugar. A pergunta nunca foi se haveria um substituto. A pergunta sempre foi qual seria.

Para quem quiser explorar melhor o pensamento de Nietzsche, existe uma coleção com algumas de suas obras essenciais:
E para uma análise filosófica aprofundada, a Stanford Encyclopedia of Philosophy reúne uma das explicações mais completas sobre sua obra:
https://plato.stanford.edu/entries/nietzsche/

Talvez hoje estejamos vendo uma resposta para essa mudança.

Se antes o valor estava no ser, agora parece cada vez mais associado ao ter. Se antes o reconhecimento vinha principalmente do caráter, hoje muitas vezes ele nasce da vitrine. Se antes a identidade surgia de dentro, agora ela frequentemente depende do que está do lado de fora.

E assim começa a surgir o Ter Humano.

Gente que mede valor por patrimônio.
Gente que mede sucesso por aparência.
Gente que mede reconhecimento por comparação.

Uma sociedade que troca o ser pelo ter corre o risco de perder exatamente aquilo que a torna humana.

A vitrine que cabe no bolso

Nada disso é completamente novo. O desejo por status e reconhecimento sempre existiu. A diferença é que nunca tivemos uma máquina tão poderosa amplificando esse comportamento.

Hoje a vitrine cabe no bolso, ela se chama rede social. E o curioso é que ninguém acorda um dia e decide conscientemente virar um ter humano. Essa transformação acontece aos poucos, quase sem percebermos. Primeiro surge um pequeno ajuste para acompanhar um padrão. Depois aparece uma expectativa que parece importante cumprir. Aos poucos surge a necessidade de sustentar uma imagem.

Quando percebemos, estamos vivendo uma vida que parece muito boa por fora, mas que nem sempre conversa com quem realmente somos por dentro.

Tem gente se endividando para manter aparência. Tem gente trabalhando sem parar para sustentar um padrão que talvez nem quisesse tanto assim. Tem gente comprando o que não precisa, com dinheiro que não tem, apenas para impressionar pessoas que talvez nem conheça direito.

O problema nunca foi ter coisas, o problema começa quando as coisas passam a ter a gente.

O personagem e a essência

Talvez seja porque viver como personagem dá muito trabalho. Lembra daquele desenho clássico da Disney em que o Pateta era tranquilo, educado e simpático, mas ao entrar no carro se transformava completamente no Senhor Volante?

Impaciente, agressivo e mal educado. Era o mesmo indivíduo, mas parecia outro ser. Talvez a sociedade tenha criado sua própria versão desse fenômeno.

O ser humano fora da vitrine e o ter humano em cena.

Nas redes sociais.
No consumo.
No status.

Quanto mais o personagem cresce, menos espaço sobra para a essência. A vida vai ficando cheia de coisas, mas o ser começa a ficar vazio. A vitrine pode até mostrar sucesso, mas ela nunca revela quem estamos nos tornando.

A pergunta que muda tudo

Talvez por isso uma pergunta simples seja tão poderosa.

O que você deixou de ser quando cresceu?

Quando éramos crianças, ser bastava. A gente ria com facilidade, se encantava com pequenas coisas, fazia perguntas o tempo todo e julgava muito menos. A curiosidade era natural. A criatividade aparecia sem esforço. A espontaneidade fazia parte da vida.

A gente não precisava provar valor. A gente simplesmente existia.

Em algum ponto do caminho, muita coisa foi ficando pelo caminho também. A leveza diminuiu, a curiosidade perdeu espaço e a autenticidade começou a ceder lugar a outras pressões.

Comparação. Expectativa. Status. Performance.

E então começamos a nos adaptar. Primeiro para caber. Depois para pertencer. Depois para impressionar.

Até que um dia surge uma pergunta difícil de evitar.

Quem sou eu quando ninguém está olhando?

Não o que você tem. Quem você é. Seu caráter, sua generosidade, sua forma de tratar as pessoas e sua capacidade de construir algo que faça sentido.

Porque no fim das contas aquilo que permanece não é o que possuímos, mas aquilo que nos tornamos. Coisas envelhecem, quebram, saem de moda e mudam com o tempo. Mas aquilo que somos acompanha a gente por toda a vida. Talvez por isso exista uma ordem simples que nunca deveria ser esquecida.

Primeiro a gente é.

Depois a gente tem.

Quando o ser vem primeiro, o ter vira consequência. Quando o ter vem primeiro, o ser vira refém.

E ninguém nasceu para viver refém da própria vitrine. Talvez esteja na hora de recuperar algo essencial.

Menos ter humano.

Mais ser humano.

Porque, no fim das contas, existe uma pergunta que vale mais do que qualquer símbolo de status.

Quem você está se tornando enquanto corre atrás do que quer ter?

O verdadeiro risco do nosso tempo talvez não seja a tecnologia ou as redes sociais. Talvez seja esquecer que o ser humano sempre veio antes do ter humano.

Tempo é vida.

E vida, no final das contas, sempre foi sobre ser.

Vamo que vamo.

Para continuar essa reflexão

Se essa conversa fez sentido para você, talvez estes conteúdos também ampliem a reflexão sobre liderança, propósito e humanidade nas organizações.

Pare de liderar assim
https://lp.uaugomais.com.br/livro-pare-de-liderar-assim

Cura empresarial
https://www.amazon.com.br/Cura-Empresarial-Fred-Alecrim/dp/8555640253/ref=sr_1_1?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&crid=3FFRLPB0ZJ65Y&keywords=a+cura+empresarial&qid=1703839499&s=books&sprefix=a+cura+empresarial%2Cstripbooks%2C159&sr=1-1

Esses livros exploram uma pergunta central que atravessa este artigo: como gerar resultados sem perder a humanidade no caminho.

Quando o ter vira identidade, o ser começa a desaparecer.

Quando uma sociedade começa a medir valor pelo que possui, ela corre o risco de esquecer aquilo que realmente é. O verdadeiro risco do nosso tempo talvez não seja a tecnologia, mas esquecer que o ser humano sempre veio antes do ter humano

Propósito continua sendo o melhor algoritmo.

Movimento gera movimento.

Fred Alecrim

www.uaugomais.com.br

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